segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Mediação pedagógica online: da teoria à práxis

O artigo de Aretio (2017) intitulado “Educación a distancia y virtual: calidad, disrupción, aprendizajes adaptativo y móvil” traz importantes contribuições acerca das potencialidades da chamada educação virtual. Analisando brevemente a influência do avanço das tecnologias no cotidiano social, o autor utiliza-se do conceito de “ruptura”, inicialmente pensado para explicar a substituição de produtos e serviços em nossa sociedade contemporânea por novos modelos, para pensar como tal fenômeno se conformaria no âmbito da educação. Ao que conclui que, da mesma forma que em outras dimensões da vida humana, as tecnologias proporcionam “perturbações” também, no campo educacional.
Entretanto, diversos estudiosos ainda apontam frágil aporte teórico nesta modalidade de ensino, quando consideramos que a EaD envolveria muito mais que, apenas o gerenciamento de recursos humanos e tecnológicos, para a finalidade educacional.
Neste sentido, o interacionismo tem oferecido um arcabouço teórico capaz de explicar o processo de ensino-aprendizagem e, da relação entre professor e aluno (aluno-aluno, aluno-ambiente, etc...), de forma satisfatória pois, vencendo o dualismo apresentado pelas teorias “empirista” e, “inatista”, ele apresenta a realidade como resultado da interação entre a experiência sensorial e, a razão. Neste sentido, caberia ao professor “provocar situações pedagógicas ricas em desafios, capazes de provocar desequilíbrios ou ‘desacomodações’ nos esquemas prévios do aprendente” (PRETI, 2009, p. 54), numa espécie de mediação, em que o professor educa, ao mesmo tempo em que é educado pelo aluno.
Neste sentido, cabe-nos refletir acerca do ambiente de aprendizagem e do papel, não menos importante, dos educadores (docentes e, tutores) neste complexo processo de aprendizagem, envolvendo as TICs.
De acordo com a “Teoria da Comunidade de Investigação”, a aprendizagem dar-se-ia através de uma comunidade que estimulasse a criatividade e, senso crítico de seus partícipes. Neste sentido, far-se-ia necessárias três modalidades de presença, no ambiente educacional à distância: a cognitiva, em que caberia aos educadores o apoio à construção individual do aluno; a social, através do AVA, mediante o apoio à construção coletiva do conhecimento e; a presença de ensino, referente às necessárias orientações de leitura, explanações nas aulas, mediações nos chats, dentre outros.
A interação entre tais “presenças”, por sua vez, proporcionaria a criação de um clima de aprendizagem (social+ensino), uma plataforma de suporte ao educando (social+cognitiva) e, finalmente, a seleção de conteúdos apropriados para o propósito educacional (cognitiva+ensino). Do conjunto delas, num processo (e)mediado pela equipe polidocente, poderíamos, enfim, obter uma experiência educacional efetiva, na modalidade à distância.
Por sua vez, segundo Salmon, os educadores e, tutores, devem possuir a compreensão de que a e-moderação envolve cinco diferentes níveis: o primeiro deles, conhecido como de “acesso e, motivação”, refere-se à necessidade de propiciar a adaptação do educando às ferramentas de aprendizagem; em seguida, conhecido como o nível de “socialização online”, seria tarefa dos educadores a criação de uma cultura de grupo, mediante o incentivo ao trabalho colaborativo; o terceiro nível, conhecido como de “maturação do grupo”, refere-se à tarefa de facilitação da interlocução e reflexão dos aprendentes que, a esta altura, já teriam iniciado o processo de partilha de interesses comuns; o quarto nível, por sua vez, implicaria no estímulo da equipe à aprendizagem colaborativa, com ênfase na construção do conhecimento, bem como na interação teoria e, prática; finalmente, o último nível conduziria o alunado à sua autonomia, mediante o incentivo à reflexão e, pensamento crítico.
Obviamente que, à uma proposta educativa que preveja a construção coletiva do conhecimento, objetivando a autonomia dos educandos, não caberia uma proposta avaliativa aos moldes convencionais: neste sentido, a avaliação deve, sobretudo, oferecer um diagnóstico inicial do domínio das condições de aprendizagem do público-alvo, ser contínua (e, portanto, avaliar todo o processo formativo do aluno), e orientadora (de forma a proporcionar ao educador uma reflexão quanto às estratégias até então utilizadas, bem como a possibilidade de adoção de novas – e diferentes – estratégias).

Referências

ARETIO, Lorenzo G.. Educación a distancia y virtual: calidad, disrupción, aprendizajes adaptativo y móvil. RIED. Revista Iberoamericana de Educación a Distancia, Madri, v. 20, n. 2, p. 09-25, 2017. Disponível em: http://dx.doi.org/10.5944/ried.20.2.18737 Acesso em 23/06/18.

______________. Educacion a distancia y virtual, 2017.

PRETI, Orestes. Educação a distância: fundamentos e políticas. Cuiabá: EdUFMT, 2009. Disponível em http://goo.gl/c40FS7 Acesso em: 23 nov. 2017.

Recomendações para estudar e aprender nos espaços online

Um dos principais benefícios da aprendizagem online, está exatamente no fato de que “o tempo” do aluno passa à ser priorizado. Não é à toa que estudantes que trabalham ou, possuem outras atividades que dificultariam, por exemplo, a disponibilidade de um turno inteiro (durante a maior parte da semana) dedicados ao deslocamento e, permanência em salas de aulas regulares, com horários de aulas pré-definidos (construídos à partir da disponibilidade das instituições de ensino de salas de aula, pessoal técnico especializado, professores e, servidores administrativos em geral) têm, em grande monta, optado (quando podem escolher) por esta modalidade.
Outro público que têm imensamente utilizado desta modalidade de ensino-aprendizagem são, exatamente, os professores. Dada a necessidade de atualização constante em suas respectivas áreas ou, na área didático-pedagógica, para melhor exercício laboral, este grupo de pessoas, muitas vezes, encontrava sérias dificuldades em adequarem seus estudos à rotina de aulas, nas escolas e, universidades, de forma à não abandonarem seus postos de trabalho e, com isso, implicarem na organização das instituições e, na rotina de seus alunos.
Contudo, os benefícios referentes ao estímulo à maior autonomia do aluno, implicam em uma gama de compromissos/ responsabilidades.
Esta modalidade de estudos (o autoestudo) abarca, dentre outros, a necessidade de construção de um planejamento criterioso, por parte do alunado, que envolva desde a escolha do ambiente de estudos – preferencialmente um espaço com poucos ruídos e, onde se possa ter pouca (ou nenhuma) interrupção –, passando pela construção de “metas de estudos” (diárias, semanais, semestrais, etc), até a criação de estratégias próprias para apropriação dos conteúdos (elaboração de resumos, mapas mentais, anotações, dentre outros) e, autopremiações (estímulo/ incentivo).
Outra questão recorrentemente subestimada pelos aprendentes online se refere à indissociabilidade entre o processo educativo e, a necessidade humana de socialização, base do desenvolvimento humano, de acordo com a teoria sócio-interacionista de Vygotsky. Diferentemente do ambiente escolar convencional, em que o contato com o outro constitui fator inevitável, na aprendizagem online, esta deve ser uma preocupação constante do aprendiz, afinal de contas, só assim poderá trocar/ compartilhar compreensões e, através deste processo, enriquecer o seu próprio aprendizado.
Entretanto, a distância “física” e, “temporal”, características do processo de ensino-aprendizagem online, implica em uma ritualística própria, que alguns autores chamam de “netiqueta”. A necessidade de que tragamos, em nossa experiência de contato com os demais alunos, à distância, certa “urbanidade relacional” perpassa, desde a nossa capacidade de “ouvir” o outro (e, portanto, não permitir isolar-se no ambiante virtual, respondendo às mensagens recebidas, mediadas pelo tutor), à sermos objetivos em nossas próprias colocações (a grande quantidade de alunos querendo ser ouvidos, mutuamente, implica na necessidade de sermos todos(as) diretos, porém, gentis).
Finalmente, àquelas somam-se desde a necessidade de sermos prudentes quanto à linguagem à ser utilizada (não devemos ser demasiadamente rebuscados mas, tampouco exageradamente coloquiais), até o compromisso colaborativo nos fóruns e, chats (contribuindo com a construção coletiva do conhecimento), através de certo cuidado com elementos mais técnicos, como: a formatação dos textos, o preenchimento da “linha de assunto” e a fundamental atenção à quem respondemos, nas mensagens.

Referências
VYGOTSKY, L. S. A formação social da mente. São Paulo, Martins Fontes, 1991.
DE SOUZA, Simone; FRANCO, Valdeni S.; F. COSTA, Maria Luisa. Educação a distância na ótica discente. Universidade de São Paulo. São Paulo, 2016.